Constantemente recebemos inúmeras informações. Todas interferem em nossa maneira de ver o mundo. E quando a janela abre uma fresta, a luz irradia, transborda e com ela, vão as palavras, os sentimentos, a visão do mundo, emoções, alegrias, tristezas, os risos e os bichos que estão presentes em cada um.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2011
Conto incômodo do canto de um cômodo qualquer
A pá arredondada e lisa do ventilador, em seu movimento livre, quase espontâneo, não fosse pela suave brisa a adentrar pela fresta da janela, reflete a cada giro a lânguida, porém desafiadora, luz emitida pelo tímido sol. A luminosidade amarelada vem banhar-me o rosto torpe, murcho como um pão amanhecido, amassado e retorcido ferro velho depositado na base de molas descompensadas e rangentes.
Essa luz intermitente, entrecortante, intrometida e interesseira, quer somente ser notada, deseja atenção plena. Ela não suporta me dividir com a penumbra e o mar de luzes coloridas que despontam no horizonte negro. Tampouco aceita a ideia de eu ser mais desperto no instante que ela está mais fatigada e busca o descanso do trabalho diário nesse lado do planeta. Ela, que tem a veneração máxima da maioria de seus filhos, só obtém um olhar secundário da minha parte. Sou filho da noite. Notívago nato.
Hão de me perguntar se sou avesso ao dia ou à luz intensa. Nada sério, digo. Eles me são bem caros. Sirvo-me deles muitas vezes. Não tenho mesmo vocação para modismos góticos ou folhetins vampirescos. Mas sou enamorado pela lua, principalmente a cheia (mera coincidência, insisto). Fascinado pela penumbra e pela vastidão perceptível de seu céu, só chego realmente ao meu ápice quando ele se tinge, primeiro num tom alaranjado, depois avermelhado, até chegar à ausência total da luz. É nesse momento que as forças se renovam, a metrópole pulula, ganha vida na efervescência das almas poéticas, etílicas, boêmias.
A radiante e teimosa luz não cansa de esbofetear minha face nessa manhã rançosa, querendo a todo custo transportar um pouco do calor do seu senhor e astro. Cansado desse vai-vem ininterrupto, forço-me a abrir os olhos. Primeiro relutante, querendo me esconder sob a cama, buscando qualquer coisa que impeça a luminosidade de ferir minha vista. Muito menos pelo desejo de despertar que uma impressão incômoda. Vencido pela insistência do brilho e pela sensação constante de que algo precisa ser feito. Viro-me para o lado, algo aporrinha. Sinto a pontada e então percebo uma lancinante vontade, a dolorida necessidade física de urinar. Lembro com muito custo que não deveria ter exagerado na ingestão de cerveja. Ah, mas a danada estava pra lá de gelada. Impossível resistir. A atmosfera era semelhante aos ares de uma estufa, como se a caldeira estivesse a uma laje abaixo de nós. A conversa animada com... putz, a vontade de novo! A galera animada... Ai, caramba, isso não importa agora. Não vai ter jeito. A luz não para. A dor aguda também não. Viro-me. Arrasto-me até a beirada do colchão. Um após o outro, os membros inferiores e superiores tentam reanimar o tronco e, por último, a cabeça. Toda fora de eixo, é claro. Sinos enormes me acompanham e não cessam de soar. Sigo ziguezagueando pelo cômodo, trôpego e desarranjado, a triste figura de um cavaleiro de Cervantes, junção de traços cubistas de Picasso mesclado às expressões marcantes de van Gogh. Um amontoado disforme, sem rosto definido, uma figura pra ser vista mesmo de longe, transfiguradamente colorido e retorcido. A vontade é imensa. O cansaço também. Dane-se o mundo machista! Sento-me na privada mesmo. Quem sabe acordo ou enfim cochilo. Enquanto a dor se dissipa, olho extasiado para a janela. A brisa bate. O alívio é um sopro gélido numa face suada. A cortina abre. E a bendita luz do sol me banha o rosto por completo.
Manoel Gonçalves
Hão de me perguntar se sou avesso ao dia ou à luz intensa. Nada sério, digo. Eles me são bem caros. Sirvo-me deles muitas vezes. Não tenho mesmo vocação para modismos góticos ou folhetins vampirescos. Mas sou enamorado pela lua, principalmente a cheia (mera coincidência, insisto). Fascinado pela penumbra e pela vastidão perceptível de seu céu, só chego realmente ao meu ápice quando ele se tinge, primeiro num tom alaranjado, depois avermelhado, até chegar à ausência total da luz. É nesse momento que as forças se renovam, a metrópole pulula, ganha vida na efervescência das almas poéticas, etílicas, boêmias.
A radiante e teimosa luz não cansa de esbofetear minha face nessa manhã rançosa, querendo a todo custo transportar um pouco do calor do seu senhor e astro. Cansado desse vai-vem ininterrupto, forço-me a abrir os olhos. Primeiro relutante, querendo me esconder sob a cama, buscando qualquer coisa que impeça a luminosidade de ferir minha vista. Muito menos pelo desejo de despertar que uma impressão incômoda. Vencido pela insistência do brilho e pela sensação constante de que algo precisa ser feito. Viro-me para o lado, algo aporrinha. Sinto a pontada e então percebo uma lancinante vontade, a dolorida necessidade física de urinar. Lembro com muito custo que não deveria ter exagerado na ingestão de cerveja. Ah, mas a danada estava pra lá de gelada. Impossível resistir. A atmosfera era semelhante aos ares de uma estufa, como se a caldeira estivesse a uma laje abaixo de nós. A conversa animada com... putz, a vontade de novo! A galera animada... Ai, caramba, isso não importa agora. Não vai ter jeito. A luz não para. A dor aguda também não. Viro-me. Arrasto-me até a beirada do colchão. Um após o outro, os membros inferiores e superiores tentam reanimar o tronco e, por último, a cabeça. Toda fora de eixo, é claro. Sinos enormes me acompanham e não cessam de soar. Sigo ziguezagueando pelo cômodo, trôpego e desarranjado, a triste figura de um cavaleiro de Cervantes, junção de traços cubistas de Picasso mesclado às expressões marcantes de van Gogh. Um amontoado disforme, sem rosto definido, uma figura pra ser vista mesmo de longe, transfiguradamente colorido e retorcido. A vontade é imensa. O cansaço também. Dane-se o mundo machista! Sento-me na privada mesmo. Quem sabe acordo ou enfim cochilo. Enquanto a dor se dissipa, olho extasiado para a janela. A brisa bate. O alívio é um sopro gélido numa face suada. A cortina abre. E a bendita luz do sol me banha o rosto por completo.
Manoel Gonçalves
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Noite longa
A noite se arrasta
Madrugada adentro
O tique-taque não basta
Ela ignora o tempo
Eu parado aqui
Largado no sofá
Sem vontade de dormir
Pensando o que rabiscar
Essa folha branca na mesa
Parece ficar gigante
A mão não acha a leveza
E a inspiração está distante
O jeito é deixar pra lá
Ver um filme ou ligar o som
Sair por aí para caminhar
Cair na noite, aproveitar o que é bom
Talvez quando eu voltar
Quem sabe seja diferente
Talvez quando eu acordar
Quem sabe num banho quente
Manoel Gonçalves
Madrugada adentro
O tique-taque não basta
Ela ignora o tempo
Eu parado aqui
Largado no sofá
Sem vontade de dormir
Pensando o que rabiscar
Essa folha branca na mesa
Parece ficar gigante
A mão não acha a leveza
E a inspiração está distante
O jeito é deixar pra lá
Ver um filme ou ligar o som
Sair por aí para caminhar
Cair na noite, aproveitar o que é bom
Talvez quando eu voltar
Quem sabe seja diferente
Talvez quando eu acordar
Quem sabe num banho quente
Manoel Gonçalves
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