
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Ordem no Congresso

Quinta-feira, 26 de Março de 2009
Presença
Aquilo que tenho
De fato não sei se é meu
Aquilo que conquisto
Não sei se é motivo de glória
Aquilo que digo
Talvez seja dito por alguém
Aquilo que escuto
Talvez seja uma voz
Ou um sopro, um sussurro
De quem só quer o meu bem
As coisas que faço
E que fazem de mim o que sou
Serão sentimentos que brotam
Ou presente que a mim chegou?
Só sei que quando penso
Assim, sabendo que existo
Que todo ar que respiro
Em tudo em que me inspiro
Sinto-me repleto de paz e amor
Da presença do Criador
Manoel Gonçalves
Quarta-feira, 25 de Março de 2009
Iluminado
Varar a noite
Ficar ligado
Não “pescar” nem ser fisgado
Pelo sono ou corpo cansado
Quero apenas ficar calado
Olhando pro céu
Parado
De olho na escuridão
O azul imenso estrelado
E na quietude da rua
Contemplando vislumbrado
Banhado pela musa Lua
Brilhante ou adormecida
Os olhos ela cativa
E mesmo em horas corridas
A alma renova, se aviva
Ali o negro se enternece
Desbota, ganha outras cores
Desaparece
E em seu lugar
Onde brilhava o luar
O astro desponta
Tímido, avermelhando o céu
Depois mais forte, retirando o véu
Descobrindo belezas escondidas
Curando ressacas vividas
Quero ficar acordado
Para nessa hora
Com corpo moído
Na pureza do dia que aflora
Olhar para o horizonte
E completamente renovado
Ver a luz dos olhos de Deus
Lembrar do presente e passado
E dizer meu muito obrigado
Manoel Gonçalves
Terça-feira, 24 de Março de 2009
Relações inglórias
Nem sempre foi assim. A boca, hoje triste, sem brilho nem batom, já se abriu em largos sorrisos e em exuberante carmim. O rosto, marcado de rugas de descontentamento, já foi macio e bem tratado, até mesmo pela mão que o desprezou tempos depois. Os cabelos despenteados já foram cuidadosamente escovados e moldados em penteados, para que ficassem de prontidão, aguardando o momento em que se libertariam e seriam amassados contra o travesseiro. O corpo que tremia no escuro, pela raiva e pelo frio, já se sentiu tão quente ao ser tocado que parecia um vulcão em erupção, pronto a cobrir de lava todo o ambiente e fazer arder a chama da paixão até que os dois corpos ficassem unidos, solidificados no êxtase do amor. Mas tudo tinha ficado num passado distante. Sentimentos soterrados por camadas de sedimentos dos percalços vividos durante anos, formando a espessa camada que camufla a verdadeira mulher por debaixo daquela casca: pessoa agradável e bem quista, juvenil e sonhadora, amante carinhosa e mãe amorosa; uma imagem reservada aos momentos solitários, quando Gilda fazia um esforço para mantê-la viva na memória.
Gilda e Adamastor se conheceram numa quermesse. Ele, 8 anos mais velho e já trabalhando numa grande empresa, não conseguiu disfarçar ao vê-la na barraca de bolos, agitando o corpo e chamando os presentes para degustar as guloseimas da barraca. Aquela noite sempre serviu para boas gargalhadas com a recordação de quantos pedaços de bolo Adamastor teve que comer até convencê-la a falar seu nome e dar o número do telefone. Gilda, que estava terminando o colegial, trabalhava como atendente de uma lanchonete no centro da cidade. Ela não queria se meter com homem mais velho, mas acabou dizendo sim três anos depois ao casamento. Se perguntarem, nem ela pode dizer como tudo aconteceu tão relativamente rápido.
As primeiras brigas começaram quando ela entrou na faculdade. Adamastor morria de ciúmes dos amigos dela e vivia bisbilhotando suas coisas à procura de algum recadinho, um nome, uma prova incontestável. Assim mesmo, Gilda conseguiu driblar a rabugice do marido e terminar o curso. Claro que o filho ajudou muito a mudar a cabeça dele. Ela achava que uma criança, mesmo sem ter terminado a faculdade, iria ajudar a melhorar o entendimento entre eles e trazer os tempos de carinho de volta.
Isso aconteceu de fato, pelo menos nos dois anos e meio seguintes. Mas a idéia de que sua esposa queria trabalhar, sair, conhecer gente diferente, trilhar uma carreira, colocava Adamastor em paranóia constante. As brigas recomeçaram. Ele começou a chegar mais tarde e conversar menos com ela. Gilda tinha de dar conta do seu emprego, não ficar até tarde por causa do filho e chegar disposta em casa, para a segunda jornada. Ele chegava resmungando, fazendo gracinhas e insinuando se alguém tinha dado em cima dela, discutia, jantava, ficava assistindo alguma coisa e ia pra cama sempre depois dela. Aí a coisa mudava de figura. Jurava amor eterno, pedia desculpas, dizia que ia mudar, envolvia-a, os dois choramingavam, faziam sexo e dormiam. Mas a história sempre se repetia.
A situação piorou de vez quando ela foi promovida. O que ele achava que seria passageiro, agora começava a ficar sério demais. Para seu desespero, a empresa desativou sua unidade de trabalho. Ele estava tão seguro de sua situação que não procurou atualização na área e tornou-se dispensável. O desemprego bateu-lhe às fuças. As discussões tornaram-se constantes com a crise financeira. Foram os piores meses na vida de Gilda, pois não raramente ele chegava bêbado em casa, gritava, derrubava algumas coisas e depois desabava na cama. Ela morria de medo, mas tinha convicção de que ele não a agrediria. Além do mais, tinha esperança que tudo mudaria assim que ele se firmasse em outra empresa. Era só uma fase e, apesar de tudo, ainda o amava e ele era um pai presente, às vezes ríspido demais, mas não desleixado, quando estava bom.
O problema é que o ócio torna a pessoa sem opções e a saída nem sempre é mais edificadora. Alguns quando caem, levantam-se rapidamente, outros preferem culpar qualquer um pela sua queda e se apóiam numa vareta para se reerguer, não percebendo a inevitável queda para o novo abismo. Adamastor se refugiou na bebida. Quando estava mal, chorava, mudava de humor rapidamente e se dizia um inútil sustentado pela mulher. Morria de vergonha e raiva por isso. E Gilda também já estava sem paciência para aguentar aquela autopiedade exacerbada.
Na sexta-feira daquela semana, pensando em se divertir um pouco, aceitou o convite das amigas do serviço para um happy hour. Mandou o filho para a casa da mãe dela, pois não confiava que seu marido fosse chegar cedo
Sem forças, machucada por dentro e por fora, com medo, dando graças por ele não ter usado de violência e a espancado, mas ferida em sua honra violada como uma besta irracional, Gilda acabou indo para a cozinha, sem saber ao certo o que faria. Colocou a água no fogo e ficou picotando a cebola. O ódio percorria seu corpo, principalmente quando lembrava do acontecido. Adamastor ficou sentado como se nada tivesse feito. Pegou no sono. Ela pensou várias vezes em fazer uma besteira, contra ele ou contra ela mesma, pois se sentia suja. Foi ao banheiro para se lavar, livrar-se daquela sujeira física e moral, purificar o corpo e a alma, arrancar as manchas e a lembrança, mas não queria se olhar, não queria constatar o horror.
A água borbulhava na cozinha, o rosto queimava no banheiro, o sangue subia e só a raiva pulsava em suas veias. Aquele homem galanteador da quermesse perdeu-se na escuridão de si mesmo. Naquela maldita noite perdia-se também para ela. Acabou o amor, findou-se o respeito, morreram as esperanças. Só ficou o ódio. Queria denunciá-lo, mas sentia medo, vergonha, não queria se expor e sofrer outra violação. Pensava no pior e pensava em seu filho. Voltou para a cozinha e ao passar pela sala, a imagem do mostro adormecido fez tudo voltar à sua mente. Dirigiu-se ao fogão, apagou o fogo, fitou o vazio por alguns segundos. Pegou a panela, foi até a sala e parou diante daquela massa tosca. Ficou enojada. Suas mãos tremiam muito. Em sua mente as cenas de todos os anos passavam depressa. Eram reconfortadas pela imagem de seu filho. Ainda bem que estava com a avó. Está em boas mãos e não preciso me preocupar agora, pensou ela. Tinha de tomar uma decisão. A que mudaria sua vida dali pra frente. Segurou firme a panela, afastou-se um pouco, respiração ofegante, e jogou a água escaldante...
A planta, que ficava num lindo vaso ao lado do sofá, ao receber aquele banho de água quente, murchou na hora, assim como murchara a flor da paixão vivida. Dela restou apenas a beleza do fruto, um menino sorridente que precisava ser cuidado para não apodrecer também.
Gilda, trinta e poucos anos, um filho, agora descasada, ainda que não oficialmente, sentiu um misto de angústia e alívio. Adamastor, por tudo o que fez, merecia seu ódio e muito mais, mas ela não merecia apodrecer na cadeia, longe de seu filho, deixando que outra pessoa o criasse. Sua sede de justiça inflava seu ser, mas não podia abdicar de sua vida e de seus sonhos, não devia se igualar aos seres irracionais. Olhou tudo a sua volta, juntou o que achava mais importante e indispensável. Os lençóis desfeitos, frios e desbotados, assemelhavam-se ao seu orgulho e seu amor. A sala revirada e a besta-fera jogada sobre o sofá incitavam-na à fuga. Apenas com a imagem de seu filho na cabeça, bateu a porta e saiu. Respirou fundo, jogou o cabelo sobre o rosto, escondeu os olhos sob os óculos escuros, tentou sair de cabeça erguida, apesar dos direitos em ser humana violados, e foi para a casa de sua mãe, sabendo que tinha muito a fazer, mas sem o peso que vinha arrastando. Algum tempo depois, Adamastor, após implorar inúmeras vezes pelo perdão de Gilda e sem conseguir sequer falar com ela, assinava os papéis do processo que ela estava movendo contra ele. Incentivada por sua mãe, procurou a delegacia da mulher e pode enfim ter sua vingança iniciada e a justiça cumprindo seu devido papel.
Manoel Gonçalves
Ser
Só queria ser um pássaro
Para compor a melodia
Que representasse o raiar do dia
Só queria ser um artista
Para pintar a comoção
De ver uma criança faminta
Comendo um pedaço de pão
Só queria ser um escritor
Para contar a todos como é
O rolar da gota de orvalho
Nas plantas de madrugada
Só queria ser um poeta
Para juntar algumas letras
Fazer delas palavras
Mesmo sem rima certa
E que unidas elas fizessem uma festa
Mostrassem só por um momento
Coisas belas que tenho aqui dentro
Coloridas por meus sentimentos
Manoel Gonçalves
Sexta-feira, 20 de Março de 2009
Cantiga de Cantador
Cantiga de Cantador
Nas caatinga do sertão
Nas cidadi de pedregúio
Seja lá no meio dos mato
Ou socado nos entuio
Ou inté neste galpão
Bem no meio da fazenda
Nas terra que foi invadida
Cercado de gado e de mato
Do gado que come moita
Tamém do home que apanha
E chicote que açoita
Cheio do cheiro da relva
Lavano roupa no rio
O home se embrenha na mata
E mostra todo o seu brio
Trabaia de sor-a-sor
No cabo da enxada
E só pára de noitinha
Pra acorda de madrugada
E é no meio do sertão
De terra seca, castigado do solzão
Que eu vô contano os causo
Do povo que sofre o descaso
Canto do rico que bebe ouro
E do pobre que pede pão
Das famía que rasga o couro
Trabaiano nas plantação
Invadino terra sem uso
Brigano e morreno
Por um pedaço de chão
É nesses canto que o home luta
Que ele briga por sua famía
Onde isquece as lei fajuta
E conhece as do dia-a-dia
E resiste com sua garra
Pra fica, memo na marra,
Com ajuda de Deus e Virge Maria,
Ou dum revórvi na bainha,
Nas terra que ninguém dá valo
Onde infrenta a pobreza e a fome
E foge dos matadô
Que recebe dinheiro dos rico
Pra liquidá cum os invasô
E eles lutam isolado
Isperano só Deus do seu lado
Purque cum fome e cum dor
Só dá pra confia em Nosso Sinhô.
E o governo que faz vista grossa
Engorda as custa deles
Depois viram as costa.
E na eleição o político diz:
- Meu filho, vou dar terra e alimento pra comer!
Dispois de eleito grita empinando o nariz:
- What cazzo pensar ser você?
Ó, Jesus Cristo, força que no peito vive
Jesus, rogo-lhe com minha voz
Meu Senhor, ao seu lado sempre estive
Eu lhe peço, me escute uma vez mais
Jesus Cristo, aqui estou eu!
Aqui, bem aqui, me traga sua paz
Até quando, Senhor?
Não sei dizer, não.
Até que Deus se canse
E pare meu coração.
Ou que a bala me encontre
No meio da escuridão
Vou levando a vida
Olhando pro céu
Trabalhando o chão
Esperando a chuva
Pra que eu tenha meu pão
Luto com a minha sina
E a fé não se perde não
Manoel Gonçalves
Quinta-feira, 19 de Março de 2009
GUERREIRO DO APOCALIPSE
Lençol mal arrumado
Rosto mal traçado
Um traço sombrio emana
Da triste vida cansado
Omite um brilho, uma chama
Emite um riso abafado
Ilusões da mente insana
Por dentro um grito que clama:
- Olhe-me, ainda estou aqui!
Mas tudo se torna lama
De onde não pode sair
Abismo grande
Passado
Querendo-o sucumbir
Nas trevas, meio rosto perfeito
Meio corpo desfeito
Meia alma estraçalhada
Rajada de tiros?
Não. Granada!
Pessoas que voam
Batalha
Gargantas cortadas
Navalha
Matas em silêncio
Sonhos internos
Mortes em vício
Vidas em inferno
O estouro ecoa
Barulho
Estrondo que lembra, perturba
Limita o homem ao muro
De estranhas formas pontudas
Lembranças muito agudas
Deixam o ser inseguro
Guerreiro do Apocalipse!
Submerso na imundice
Confuso em sua crendice
Escondido no escuro
Jorrando o líquido impuro
Do horrendo e grotesco furo
A ferida aberta no peito
A dor latente na mente
Pesadelo sempre presente
Vergonha do mal já feito
Manoel Gonçalves

