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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Além dos dois lados

Além dos dois lados


Quem sou eu?
A imagem refletida, revivida
Ou a esperança no amanhã?
O rosto sereno do riso
Ou retorcido do pranto?
A brisa da noite na fronte
Ou o sol rasgando no horizonte?

Quem sou eu?
A flor que se abre ao sol
Ou as tintas expressas na tela?
Os olhos furtivos da bela
Ou a imagem fria no espelho?
A pálida pétala da rosa
Ou o calor dos lábios vermelhos?

Quem sou eu?
Corpo caído na cama
Sapato atolado na lama
Raio de luz na neblina
Um grão de areia fina
Vento que sopra e balança
Um sopro, suspiro de criança

Quem eu sou?
Aquele que ama sem medo
Que não chora em segredo
Que gosta do canto dos pássaros
De bom dia, apertos e abraços
Café forte e quentinho
Acordar devagarinho
Voltar pra casa à tarde
Comer bolo de chocolate
De ter família à espera
Ser amigo dos outros
E ter amizades sinceras

Quem sou eu?
Quem somos nós?
Amantes inebriados
Cadarços entrelaçados
Xícaras quentes de chá
Cobertas, pipoca e sofá
Conversas sussurradas
Roupas sujas, molhadas

Quem pode dizer quem sou eu?
Ninguém, a não ser eu mesmo
Quem pode dizer o que somos nós?
Senão corpos soltos a esmo
Inertes
Fatigados de tantos flertes
Incautos, desnudos, exaustos


Manoel Gonçalves

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