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terça-feira, 29 de julho de 2014

Fra(e)ternidade


Amigo é um doce

Uma reza
Um abrigo
Um afago

Amigo é azedo
É bronca comedida
É pegar no pé
Cutucar na ferida

Amigo é espelho
Repetir gestos
Vestir a sombra
Sentir a dor
Secar as lágrimas

Amigo é ser
E mais que ser
Estar
Sentir
Pulsar

Amigo é pular
Seja corda
Seja abismo


Amigo é saudade

Do que foi
De quem foi
Do que está
Do que vem
Do que será

Amigo é nada

Simplesmente 
O vazio
O vácuo
O entender de olhares

Amigo é tudo

Meia no pé
Cobertor
Chocolate quente
Lenço de papel
Música brega
Filme antigo

Amigo é momento
A mão que empurra
O peito que afaga
O ouvido a espera
O sonho partilhado
Conquistas
Emoções etílicas
Vibrações físicas
Abraços

Amigo é amigo
Tudo isso
Nada mais
Ou só isso
E muito mais

Manogon

terça-feira, 8 de julho de 2014

Dura, Envelhecida e Renovada

Itaquera
Pedra Dura
Envelhecida
Duras pedras
Duras penas
Sofridas
E pena
Que pena

Itaquera pra quem mora
Itaquera de quem adora
Pra chegar é difícil
Sair então, sacrifício
Já foi muito mais
Alguns poucos anos atrás

Itaquera, nossa terra
Quase no fim da leste
De gente igualmente dura
Feito o cabo da enxada
Feita da vida labutada
Feito tantos como meu pai
Que vieram do longe sertão
Feita também de mulher forte
Que tudo largam e tentam a sorte
Uma gente de bom coração
Que enverga, mas não cai
Não se acomoda no chão

Mas Itaquera ficou famosa
Apesar de ser antiga
Tornou-se enfim conhecida
Não por algum crime ou cativeiro
Nem por tráfico ou roubo de dinheiro
Virou notícia no mundo
Em noticiário internacional
Está cheia de novidade
Virou atração da cidade
Atração de todo o país
E do povo de outro lugar

Enfim, Itaquera mudou de vez?
A fama trouxe progresso outra vez?
Não, o povo não ficou rico não
Sequer melhorou a educação
Não está no auge de sua plenitude
Tampouco revolucionaram a saúde
Não construíram novos hospitais
Nem sanaram problemas sociais
Não herdou riqueza nem herança
Nem é menor a falta de segurança

Até pintaram nossas ruas
Recapearam outras tantas
Melhoraram alguns acessos
Só não veio junto o progresso
Que foi amplamente alardeado
Em propagandas de TV e rádio
Assim que foi informado
Que Itaquera teria estádio
Hotel, rodoviária e investimento
Chance de mais desenvolvimento
Mas essa promessa não é nova
Sempre tem a que se renova
Algo que parece genial
Trazer pra nossa região
Mais saúde, justiça e educação
Que transforma, liberta e perdura
Que incentive a produção de cultura
Dar para empresas isenção fiscal
Para tais polos comercial e industrial
Coisas que não são exclusivas
Do bairro e dos moradores
Anseios que a população precisa

E se pareço revoltado
Peço não julgue errado
Não acho de todo mal
O que foi feito afinal
Não estou de fato puto
Mas Itaquera merece de fato
Muito mais que túneis e viadutos


Manogon

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sofá Vazio


Ausência
Não é a falta
Não é o não ter
Não é o não ver
É saber o que fazer
Com o que sinto por você
Ausência
É ver que o sofá
Não tem mais sua marca
Que a TV não reverbera
Seu sorriso
Que a louça não sorri
Ao seu toque
Que a planta não se pinta
Mais com suas carícias
Ausência
É o quanto estou
Repleto de você
O quanto de você
Carrego em mim
E acabo sendo egoísta
Com esse sentimento
Pois não posso mais
Partilhá-lo consigo
Tento ausentar-me
Mas o vento que ecoa
Nas montanhas do passado
Uiva suave em meu ouvido
E nele só escuto sua cantiga
Só vejo a fumaça do café
E vejo sua mão enrugada
De pele fina e calo grosso
Acariciar o sofá
E me chamar pra sentar

Manogon

terça-feira, 17 de junho de 2014

VagArte

Se a vida se arrasta
Lenta
Se o vagar é um fardo
Aguenta
Se o deslizar é um arte
Inventa

Manogon

(Re)Verso


Que atire a primeira vidraça
Aquele que nunca foi pedra
Que aponte a cara no dedo
Quem faz do erro uma vida
Aquele que nunca se engasgou
Com o comprimento da língua
Que fique exposto na praça
Aquele que nunca queimou suas bruxas
Que seja beatificado em altar-mor
Quem só passou pelos pecados na vida
Que o corpo não fique desforme
Sob o peso diário da terra
Suportado mesmo antes da morte
Que a face sofrida não se trinque
Com o reflexo retorcido do espelho

Manogon

Oratório


Não escrevo poesia
Derramo sentimentos
Ora declamo o mundo
Ora descrevo paixões
Ora expurgo fantasmas

Não sou poeta escritor
Ora sou vento brando
Acariciando madeixas
Ora sou nuvem escura
Carregando tempestades
De sentimentos e pensamentos
Ora sou tormenta furacão
A causar tremores ao coração

Não canto flores em prosa
Não viajo com os pés no chão
Desconheço a cadência da rima
Nem palavras soltas em uma oração

Manogon

De Pernas pro Ar



Se Antônio subesse
O que é que é esse dia
Fazia tudo que desse
Pra mode casá Maria

Ah, se Antônio suber
O que se faz nessa noite
Dava uma surra em Jusé
Daquelas feias de açoite

Mas Antônio não se importa
Nem com Zé ou com Maria
Se pica pra fora da porta
Pra só voltá no outro dia

Ah, Antônio, volte, apareça
Abençoe o pãozinho do arroz
Ou vai ficá de ponta-cabeça
E só vai desvirá bem dispois

Acontece que Mariazinha
É doidinha pelo Zezito
Já rezou até pra Mainha
E também Santo Ixpedito

Só falta com Antônio falá
Pra mode fazer o casório
Pruquê se o Zé num casá
Já vai tá pronto pro velório

Então, por tudo de mais sagrado
Antônio, seja lá onde se enfiou
Venha na carreira, apressado
E traga o padre e o doutô

Assim, encerro essa prece
Pra que tudo termine em paz
E nem que seja na quermesse
Una essa mulhé e o rapaz

Manogon