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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Conta gotas


Sinto o
Pingar
Da prosa
Suplicante
Gotejante
Solitária
Uma a uma
No meu oceano
Poético

Manogon

Fonte


Das lágrimas de seus olhos
Fiz minha Quaresma penitente
E supliquei perdão aos meus pecados
Na sua santa carícia e nos afagos

Das palavras que escorreram
Da doçura de seus lábios
Fiz-me bem-te-vi e me saciei
Do seu mais puro néctar

Do brilho de seus olhos
Orientei minha nau da deriva
Bebi de sua fonte à tarde
E vislumbrei meu horizonte

Do seu calor de amante
Virei-me em brasa e luz
E achei meus caminhos e segredos
Na inquietude de suas marés lunares

Manogon


Para minha inspiração de todo dia
Eunice Quitéria

Primavera


E essa força que dilacera
Que rompe, roça, rasga
Uivo longo e agudo
Que corta a brisa mansa
Dissipa a barreira enevoada
Semente teimosa
Germinando em rochas
Árvore frutífera
Florindo, flor indo
Palavras maduras
Versos caindo
E essa força que dilacera?
Rompe, irrompe, aos montes
Às pencas, aos molhos, aos cachos
Ramalhete de sentimentos
Coloridos como gerberas
Miúdos e milhares
Véu de noiva
Que cobre e enfeita
E essa força?
Sei lá
Paixão
Coisa de poeta
Que nasce em botão

Manogon

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Feijoada Braba

Feijoada Braba
Feijoada braba
Pesou pra burro no bucho
Feito âncora levada ao fundo
Pesou mais na cabeça
Da tristeza do moribundo

Feijoada indigesta
Concreto armado na barriga
Líquido azedo de refluxo
Soco ácido no estômago
Ressaca, descarga, repuxo

Feijoada completa
Acompanha torresmo duro
Da vida roída no osso
Farofa de poucos miúdos
Já que miúdo foi o bolso

Feijoada mesquinha
Carne seca estava em falta
Preço do paio em alta
Costela, só se for a minha
E nem sinal da caipirinha

O jeito foi tomar um Zulu
Pra encarar esse angu
Desceu rasgando a goela
O peito, o bucho e as tripas
Pra completar a besteira
Da pobre feijuca lembrar
Me deu uma caganeira
E nem papel pra me limpar

Manogon


Uma poesia pra tirar um barato. Uma forma de rir daquilo que às vezes pode ser desastroso e que reflete também uma desgraceira maior. Não aconteceu de fato, mas há fatos que podem ser vistos aos poucos, isolados ou acompanhados. Já vi mesmo um cara, depois de se enfiar como voluntário numa obra a espera dos bebes (nem tanto os comes), encarar uns bons goles de álcool (que era pra acender a churrasqueira), na falta ou pelo excesso da pinga, e sair se maldizendo. Terrível e deprimente...

Riso Raso

Um riso raso
Raro e caro
Sem preparo
Sempre para
Se depara
Se deprava
Rico rio de raros
Risos Rasos

Raros risos
Raivosos, Rotos
Divididos
Distantes
De instantes
Raros e ralos

Escassos risos
Sorrisos díspares

Pare! Diz um riso
Dispara! O outro incita.

Ela só ri, sorriso raso
Não se excita nem hesita.

Disparo!

No canto da boca
Fluído em fluxo
Resta o resto
De um raro e caro
Raso ruído riso

Manogon

sábado, 18 de janeiro de 2014

Senões

Senões

Na sala tudo lembra você
Menos o sofá, que já não possui a forma de seu corpo

Na cozinha tudo lembra você
Menos o fogão, que não sente mais o aroma de seu café

No quarto tudo lembra você
Menos o espelho, que já não vê o pente deslizar em seu cabelo

Na casa tudo lembra você
Menos a flor, que já foi de maio e, hoje, não tem mês nenhum

Em mim tudo lembra você
Menos minha boca, que não pode mais tocar o calor de sua pele

Em minha mente tudo lembra você
E nisso faço questão que não haja qualquer senão

Manogon

18-01-2014

Lamúrias do tempo

É preciso escrever para dar vazão ao sentimento e às ideias represados, sob risco de um transbordo desenfreado e alucinante.


Lamúrias do tempo

Sigo o
Som
       Que soa
           Pela fresta
                      Escoa
         Siiiiilvos de alumínio
     Ecoooooaaa
Cego som
    Que passa
        Sem passo
        Sem posse
   Só sopra
Soçobra
     Sussurra
        Só
       Surra
O vidro
Os furos
A porta, aperta, apoia
Aporta
      Uuuuuivo de lobo
     Soprando e soprando
        Empurra
          Agoniza, aterroriza
Grito agudo
    Zurra!
Fiuuuuuuuu!
      Que zorra!
- Viu?
- Não!
- Sentiu?
O frio, o arrepio, o sombrio, o vazio

Vento na janela
     Passa, passa
     Pulsa, pulsa
Engole a chama, apaga a vela
Segue o som pelo apartamento
           Calmaria...
Sumiu o vento.
Ventou com ele
O pensamento
Deixou na fresta
Lamúrias do tempo.

Manogon