Nem tudo que escrevo
É o retrato do que sou
Nem tudo que penso
Revela minha essência
Nem tudo que faço
Pode me elevar ou condenar
Nem tudo que digo
Sai exatamente como quero
Nem tudo que respiro
É ar ou muito menos saudável
Nem tudo que bebo
É insípido e inodoro
Nem sempre encontro comigo mesmo
Mas estou em tudo que faço
Em cada pensamento vago
Do riso amarelo ao amor declamado
Estou em cada uma dessas coisas
Que não têm tudo exato
Mas refletem a colcha de retalhos
Que representa uma pessoa
E os pedaços juntados numa jornada inteira
Manoel Gonçalves
Constantemente recebemos inúmeras informações. Todas interferem em nossa maneira de ver o mundo. E quando a janela abre uma fresta, a luz irradia, transborda e com ela, vão as palavras, os sentimentos, a visão do mundo, emoções, alegrias, tristezas, os risos e os bichos que estão presentes em cada um.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
sábado, 12 de abril de 2008
Rito de beleza
(texto publicado em 05/04 no blog Livro Aberto)
Joana desligou o chuveiro, se secou e vestiu o roupão de seda. Pegou o creme hidratante, o espelho oval que fazia par com a escova de cabo trabalhado, presentes de seu amado marido Valter (juntamente com o roupão, onde estava envolvido também um bilhete com os dizeres: “para que fique ainda mais encantador o seu ritual de beleza, o qual me deixa qual poeta a admirar a sua musa lua”). Ela sentou-se em sua cama, levantou a perna esquerda, permitindo que o roupão se entreabrisse e revelasse parte de suas curvas, e lentamente iniciou a sua massagem de hidratação.
Joana desligou o chuveiro, se secou e vestiu o roupão de seda. Pegou o creme hidratante, o espelho oval que fazia par com a escova de cabo trabalhado, presentes de seu amado marido Valter (juntamente com o roupão, onde estava envolvido também um bilhete com os dizeres: “para que fique ainda mais encantador o seu ritual de beleza, o qual me deixa qual poeta a admirar a sua musa lua”). Ela sentou-se em sua cama, levantou a perna esquerda, permitindo que o roupão se entreabrisse e revelasse parte de suas curvas, e lentamente iniciou a sua massagem de hidratação.
Valter poderia muito bem se oferecer para fazer aquilo, como de fato fizera algumas vezes, mas o ritual todo o fascinava, era como assistir o nascer do sol na colina, não tinha nada a fazer a não ser admirar o acontecimento natural, a beleza do momento. Ela só olhava de canto de olho e sorria. Era como o brilho do sol a se espalhar na planície. Valter saboreava cada segundo. E assim se seguia até todo o corpo exalar o perfume adocicado do creme. Porém, o ápice era ver Joana pentear o cabelo. Era tão meiga em suas ações que fazia daquele instante algo sublime. Nem uma sereia de verdade seria capaz de enfeitiçar um homem daquele jeito. Ela parecia irradiar, sua aura poderia iluminar o quarto. Era um esplendor. E ele, como marujo em transe, se encaminhava para o seu mar, onde se agarrava ao corpo dela e já não via mais nada, era presa fácil envolta em seus braços, inebriada em seu perfume, sua pele, seu rosto e seus cabelos. Adormecia nos braços de Joana ou agarrado a ela, como se não quisesse que aquele instante tivesse fim.
Não era um ritual de toda noite e nem sempre ele estava lá para assistir, pois às vezes chegava mais tarde do trabalho. Nesses dias, ela se aprontava toda e ficava a esperar, mas ainda deixava para escovar o cabelo um pouco antes de dormir, só para que ele visse. Não era nada extraordinário, mas era algo que o deixava contente e para ela já bastava.
Porém, um dia, ele não chegou. Ela esperou em vão. Embora soubesse do acontecido, do acidente que o levara, Joana ficou por um tempo fazendo aquele mesmo ritual, deixando perto da cabeceira da cama o espelho e a escova, esperando que ele aparecesse de uma hora para outra e pudesse espiá-la novamente.
Os anos passados fizeram de Joana uma mulher mais conformada com o que se sucedera. A escova foi guardada na gaveta, enrolada junto com o espelho num lenço de Valter. Os cabelos branquearam e ficaram mais ralos. A pele já não tinha mais o mesmo viço. As marcas no rosto não escondiam, porém, a alegria da vovó Joana em abraçar e apertar o netinho Valtinho ao fazer suas vontades.Mas nesta noite a lua brilha imponente no céu. Não há nuvens. Ela parece estar com o dobro do tamanho. Joana toma seu banho, se seca e veste o roupão. Vai para o quarto, abre a gaveta e pega a velha escova, cuidadosamente preservada. Já não tem mais a mesma elasticidade, mas ainda assim faz o seu rito de beleza. Penteia os cabelos prateados e deita-se. Coloca a escova e o espelho ao seu lado e fica esperando. Ela sabe que esta noite ele vem. Valter voltará para admirar sua musa e novamente se emaranhar em seus braços. E depois colocá-la em seus braços, esperando que ela finalmente adormeça com um delicado sorriso na face.
Manoel Gonçalves
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Arte de Viver
Da arte não faço parte
Talvez nem faça a tal arte
É ela que, singela,
Esperta e sorrateira,
Se esconde em minha mente
Muito ágil e faceira
Usando os seus encantos
Desliza feito serpente
E me guia como fantoche
Revela, para minha sorte,
Quase como um deboche
Aquilo que quer de mim
Assim sendo, ela é o Norte
Não posso ser dela uma parte
Ela é que é meu estandarte
Meu jeito diferente de ser
De agir, de pensar e de ver
É a arte que vive em mim
Manoel Gonçalves
Talvez nem faça a tal arte
É ela que, singela,
Esperta e sorrateira,
Se esconde em minha mente
Muito ágil e faceira
Usando os seus encantos
Desliza feito serpente
E me guia como fantoche
Revela, para minha sorte,
Quase como um deboche
Aquilo que quer de mim
Assim sendo, ela é o Norte
Não posso ser dela uma parte
Ela é que é meu estandarte
Meu jeito diferente de ser
De agir, de pensar e de ver
É a arte que vive em mim
Manoel Gonçalves
segunda-feira, 31 de março de 2008
Inércia

O silêncio da espera
Vagar dos movimentos
Ignora minha mente
Deixa-me torpe, inconsciente
Mas apesar do som ausente
Há um zunido interminável
Por mais ninguém escutado
Ínfimo, imperceptível
Somente por mim audível
O ritmo inesperado
Do coração acelerado
Enquanto espero
Pacientemente
Parece parar tudo
Pára o vento
Cessa o relento
A pipa não voa no ares
O barco não flutua nos mares
Imóvel fica a folhagem
A rua fica deserta
Ninguém a caminhar
Nem pedestre pedindo passagem
Nem carro, nem moto
Nem guarda para multar
Pára o barulho da cidade
Somem as dificuldades
Não se conta o peso da idade
Nem há rugas de preocupação
Nenhuma nuvem, nem tempestade
Nem sol quente de verão
Só há o relógio
E os seus ponteiros armados
Que mesmo vagarosamente
Avançam sempre pra frente
Incansáveis, determinados
A minha espera pára tudo
Interrompe qualquer movimento
Só não consegue paralisar
As engrenagens do tempo
Manoel Gonçalves
Vagar dos movimentos
Ignora minha mente
Deixa-me torpe, inconsciente
Mas apesar do som ausente
Há um zunido interminável
Por mais ninguém escutado
Ínfimo, imperceptível
Somente por mim audível
O ritmo inesperado
Do coração acelerado
Enquanto espero
Pacientemente
Parece parar tudo
Pára o vento
Cessa o relento
A pipa não voa no ares
O barco não flutua nos mares
Imóvel fica a folhagem
A rua fica deserta
Ninguém a caminhar
Nem pedestre pedindo passagem
Nem carro, nem moto
Nem guarda para multar
Pára o barulho da cidade
Somem as dificuldades
Não se conta o peso da idade
Nem há rugas de preocupação
Nenhuma nuvem, nem tempestade
Nem sol quente de verão
Só há o relógio
E os seus ponteiros armados
Que mesmo vagarosamente
Avançam sempre pra frente
Incansáveis, determinados
A minha espera pára tudo
Interrompe qualquer movimento
Só não consegue paralisar
As engrenagens do tempo
Manoel Gonçalves
quarta-feira, 19 de março de 2008
Menina Mulher
Gosto do seu jeito de menina
Do seu modo de se mover
Flutuando como bailarina
Escondes o róseo da face
Finge o mundo não ver
Gosto do seu jeito de menina
Das suas formas de mulher
Do veneno que me contamina
Do seu olhar ardente
Que incendeia meu ser
Gosto do seu jeito de menina
De sorrir, sentir e brincar
Gosto do seu jeito de mulher
De olhar-me de canto de olho
De me tocar e me encantar
De não deixar uma saída sequer
Senão a de lhe apreciar
Gosto do seu jeito de menina
De como se transfigura no ar
Gaivota livre a voar
Dona da própria sina
Gosto do seu jeito de mulher
De suas rimas, suas canções
Da sua maneira de poder mexer
Com todas as minhas sensações
Vai, gaivota, no céu
Seja menina
Seja mulher
Seja o vento, o mundo
Seja o que seu coração quer
Seja tudo que possa ver
Enfim, seja simplesmente
Como você realmente é
Manoel Gonçalves
Do seu modo de se mover
Flutuando como bailarina
Escondes o róseo da face
Finge o mundo não ver
Gosto do seu jeito de menina
Das suas formas de mulher
Do veneno que me contamina
Do seu olhar ardente
Que incendeia meu ser
Gosto do seu jeito de menina
De sorrir, sentir e brincar
Gosto do seu jeito de mulher
De olhar-me de canto de olho
De me tocar e me encantar
De não deixar uma saída sequer
Senão a de lhe apreciar
Gosto do seu jeito de menina
De como se transfigura no ar
Gaivota livre a voar
Dona da própria sina
Gosto do seu jeito de mulher
De suas rimas, suas canções
Da sua maneira de poder mexer
Com todas as minhas sensações
Vai, gaivota, no céu
Seja menina
Seja mulher
Seja o vento, o mundo
Seja o que seu coração quer
Seja tudo que possa ver
Enfim, seja simplesmente
Como você realmente é
Manoel Gonçalves
quarta-feira, 12 de março de 2008
Desabafo de Mãe está de volta!
Mães, pais, padrinhos, madrinhas, tios, tias, avós, amigos, todos. Corram para a frente da telinha, acessem o site do Desabafo de Mãe e podem viajar à vontade. Ele está de volta. Ficamos um pouco fora do ar, por motivos de reformulação, para fazê-lo ainda mais interativo, dinâmico e com mais conteúdo, mas agora acabou o recesso (sem fazer alusão à política). O espaço é de todos, feito por muitos e para todos aqueles que amam os filhos ou crianças próximas, ou seja, para quem aprecia a arte (para não dizer dura, mas prazerosa tarefa) de educar as crianças. Visite cada espaço e não tenha medo ou vergonha de nos mandar um comentário, dúvidas, sugestão de tema para ser abordado ou mesmo um desabafo sobre a sua experiência com a maternidade ou paternidade. Ah, você não é pai nem mãe. Não tem problema. Se pensa em um dia entrar para esse time ou se interessa pelo assunto, venha nos conhecer.
Um super abraço e aguardo sua visita.
Um super abraço e aguardo sua visita.
terça-feira, 11 de março de 2008
Oculto
O pássaro não precisa que o fotografem em vôo para saber que voa. O sol não precisa aparecer sempre para que saibamos que ele está lá. Ninguém vê a formação do orvalho, mas toda manhã ele cobre as plantas e as deixa encantadoramente refrescadas. A lua não precisa aparecer para incitar o poeta a escrever seus belos versos. A pessoa amada não precisa ouvir sempre "eu te amo" para saber que alguém se preocupa com ela e quem ama transmite toda a força e sinceridade de seu sentimento em tudo o que faz, desde os atos mais simples até uma declaração mais fervorosa. O amor é recíproco, tenham certeza. Talvez não na mesma intensidade, talvez não na mesma linguagem. Mas ele está lá, marcando seu território e impedindo que sentimentos vis se apoderem da mente, do corpo e do espírito. Mesmo que os olhos não o vejam, o coração sentirá sempre e a mente não deixará que se apague. E assim, como o orvalho, toda manhã (ou qualquer outro período, conforme cada pessoa), ele se formará e se renovará, com a simplicidade de uma gota d’água, mas com a força de um desabrochar da flor, revelando a pureza e a beleza de quem o detém. É a paz que se sente ao sentar numa montanha e olhar o céu. Sentir-se pequeno frente ao céu alaranjado ao pôr-do-sol. E o espetáculo de um belo raiar do dia. Tudo isso misturado em nosso corpo, mera armadura forjada no ápice desse sentimento, preparando-se para irradiar a todos, como uma explosão da super nova, como o oxigênio que abraça carinhosamente o planeta e protege a diversidade de seu interior.
Abraços.
Abraços.
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