Mig saiu correndo para se esconder. Não poderia ser visto. Ainda estava sem o seu traje e seria facilmente identificado. Aproveitou uma distração daquela que parecia ser uma intrusa em seu espaço e passou rapidamente pelo corredor. Com receio que ela se virasse de repente, saiu em direção à escada e a subiu com se estivesse fugindo do perigoso Rork, o monstro aterrorizante de três cabeças, capaz de desferir golpes mortais e enxergar em toda parte, tornando quase impossível o oponente escapar de sua fúria. Ainda bem que não era ele, senão Mig não teria a mínima chance. Pequeno e magrelo, mas com uma sutil deficiência em seu organismo, que apesar da sutileza, o impedia de ser tão ágil. Seria a presa fácil. Somente seu traje o colocaria em vantagem e o tornaria tão habilidoso quanto seu pensamento pudesse sugerir. Para sua sorte, Kork estava no extremo norte do planeta. Aquela “intrusa” era alguém que ele não conhecia, e por isso mesmo podia perceber sua presença.
Chegou ao topo da escada quase sem fôlego, olhou pelo corredor obscuro e localizou a porta que queria. Entrou e demorou alguns nano-luz de tempo lá dentro. Quando a porta abriu, Mig saiu imponente em seu traje negro e cinza. Agora sim ele estava preparado para enfrentar os perigos do caminho até sua nave, onde estaria a salvo de qualquer inimigo, ativando o escudo de camuflagem. E o obstáculo estava ali mesmo, muito perto de impedir a concretização de sua missão. Mig ativou um botão em seu traje e desceu a escada sem pisar na escada, flutuando a 5 microfeet do chão. Deslizou pelo corredor até o salão central. Já podia ver seu transporte mais a leste. Mas o curioso é que ela não estava no salão. Estava fácil demais. Olhou para um lado, olhou para o outro. Nada, absolutamente nada! Onde ela teria ido? Será que o havia seguido? Não, seu treinamento com os dark angels o havia munido de instintos que detectariam a presença dela. Como não tinha tempo para esperar, começou a se encaminhar para sua nave. Mas a pressa não o deixou perceber um vulto escondido em uma entrada no final do corredor. Quando Mig passou, ela veio por trás dele. Seus instintos o fizeram pular e ele gelou. Não era possível, como tinha sido tão descuidado. Olhou de canto de olho para aquela criatura e saiu correndo. Ela tentava se comunicar, mas o dialeto era ininteligível. Ele tinha que conseguir, faltava pouco para chegar à sua nave e ficar seguro. Jogou-se no chão, saiu rolando e estava quase, quando ouviu um grito, algo quase assombroso que quase o paralisou, mas agora sabia que conseguiria, sua missão estava salva.
- Migueeeeelll, cuidado menino, vai se machucar!
Mas Carlota sabia que seu filho não a escutaria. Não naquela hora em que ele era o comandante Mig, pilotando sua nave, digo caixa de papelão, e explorando os locais mais longínquos das galáxias. Quando Carlota chegou com a TV 29”, Miguel ficou entusiasmado, não só pela TV novinha, mas principalmente pela caixa, pois foi só o seu pai tirar a TV que ele se jogou dentro da embalagem, vestiu-se com algumas coisas, improvisou um chapéu e começou sua viagem.
Manoel Gonçalves
* Esse miniconto foi feito inspirado no rosto traquina do Gábi, filho de nossa amiga Simone, a qual tem em seu MSN uma foto dele dentro de uma caixa de papelão. Miniconto que fiz e publiquei no blog do Desabafo de Mãe.
Palavras surgem do nada
Rabiscadas numa folha
Estranhas, tortas
Apressadas
Estrofes não acabadas
No papel me expresso
Idéias, pensamentos
No texto impresso
Vontades, desejos
Sonhos, lamentos
Manoel Gonçalves
Seu Luís é a prova de que o tempo, apesar de passar cada vez mais rápido (ao menos é essa a minha percepção), não é a mesma coisa para todos. Lembro da figura do seu Luís como se fosse uma marca do nosso bairro. Desde que recebi o alvará para poder ir à escola sozinho, lembro de vê-lo no horário da saída das aulas. Ali, parado, com ar pacato e meio bonachão. Sempre do mesmo jeito: sandálias de couro, calça de tergal, camisa meio rota e um aventalzinho. Espátula na mão e uma bandeja cheia da guloseima à sua frente, ele fazia a alegria da criançada. Não era para menos. Tomávamos um café mirrado antes de sair de casa e a aula acabava perto da hora do almoço. Parecia que o estômago ia varar pelas costas, que ia atacar a costela e ainda chupar o ossinho. Então, ao sair e dar de cara com o seu Luís, sempre que tínhamos dinheiro, era parada obrigatória. Aquele senhor, com olhos verdes e jeito de Dona Benta (personagem de Monteiro Lobato), bochechas rosadas e óculos arredondados, era querido pela garotada não era à toa, pois, mesmo quando não tínhamos dinheiro, acabava dando uma raspinha para os clientes mais fiéis. E assim, seguíamos nosso aminho na bagunça rotineira dos estudantes a caminho de casa.Mesmo depois de sair daquela escola, sempre que avistava seu Luís, parava e comprava um pedacinho de seu doce. Mas aí comecei a trabalhar e passei a ficar menos tempo no bairro. Seu Luís perdeu seus “clientes” para uma bomboniere que abriu em frente à escola e vendia cada vez menos. Porém, como disse antes, ele não evoluiu com o tempo. Fazer quebra-queixo era mais que um simples negócio para ele. Era segredo de família. Aprendeu com seu pai, que aprendeu com a mãe dele, a arte de fazer o mais saboroso doce. Mesmo sem vender direito, ela fazia todos os dias uma bandeja cheia e saía às ruas. Quando não conseguia vender, passava em algum bairro carente e doava tudo aos garotos pobres. Até por isso mesmo, vez ou outra recebia algumas doações de amigos e ex-clientes.Certa vez resolvi passear pelo bairro em que cresci e matar a saudade, ver se ainda conhecia alguém ou se lembrava dos lugares. E não é que vi seu Luís parado numa esquininha, já bem avançado nos anos, mas com o mesmo jeito de antes, porém, sem o mesmo brilho no olhar. Mas a fiel bandeja estava com ele e, ora quem diria, com o saudoso quebra-queixo. Não resisti. Tive de comprar e relembrar o gosto da infância. Aos poucos ele foi se lembrando de mim e ria como antes. Com um isto de pena e reverência por aquele bondoso homem, resolvi comprar seu doce todo. O que ia fazer eu nem tinha pensado. Certamente doaria em algum bairro carente, imitando o gesto do mestre. Ofereci-me para acompanhá-lo, mas acho que o orgulho de poder fazer as coisas conscientemente o impedia de aceitar ser levado como um velho gagá. Eu respeitei e me despedi.Nunca soube onde era sua moradia, mas me contaram que era paupérrima. Talvez se a conhecêssemos não compraríamos seu quebra-queixo. Por achar que seria anti-higiênico, por preconceito, por tabu, sei lá. Porém, a grande magia estava no cheiro que dela exalava. Seu Luís era super cuidadoso com o processo e fazia ainda no estilo de sua avó.Dois meses depois daquele prazeroso encontro seu Luís faleceu. Mas o engraçado é que eu não consigo passar pelo meu antigo bairro sem achar que o vejo lá, no mesmo cantinho, em frente à escola, com sua bandeja cheia de doce e um rodeado de crianças querendo sempre mais ou pelo menos uma raspinha.Manoel Gonçalves* publicado também no blog Coeltânea Artesanal
Em meu peito-criança
Carrego a doce lembrança
Do riso que vai na distância
Da minha saudosa infância
Em meu peito-adolescente
Carrego ainda latente
Um coração sonhador
Que cria versos, canta amor
Em meu peito-adulto
Aquilo que não sepulto
A inocência de gostar
Da brisa morna do mar
Em meu peito-idoso
Carrego sempre orgulhoso
A infindável esperança
Pulsante de uma criança
Manoel Gonçalves
O homem acordou e saiu tateando. Apesar da escuridão total, sabia exatamente onde ficava cada obstáculo. De repente sentiu algo estranho, algo que nunca havia sentido. Uma sensação de medo e curiosidade tomou-lhe por inteiro. Um pequeno feixe de luz cortou as trevas e iluminou parcialmente seu rosto e algumas coisas ao seu redor. Seus olhos eram muito sensíveis e aquela fresta aberta o incomodava, mas ao mesmo tempo atiçava a sua mente dormente por tantos anos de breu. Aos poucos a luz se tornava mais abrangente e o calor que ela produzia acariciava sua pele. Apesar da estranheza, ele gostou. Piscou os olhos muitas vezes até que os mesmos se acostumassem e ficassem de vez abertos. Olhou à sua volta. Aquelas coisas que ele sempre tocava, mas não sabia o que era. Aproximou-se da parede. Havia alguma coisa ali pendurada. Ele se aproximou mais. Deu um urro e se afastou. Tinha visto alguma coisa, alguém dentro da parede. Inquieto com a situação, tentou chamar a atenção do ser, balançando os braços, ao que o outro também o imitava. Mexia-se para um lado e para o outro. O prisioneiro do espelho o seguia. Foi chegando de mansinho e tentou dar a mão ao “amigo”. Mas havia algo que o impedia. Sempre batia numa parede lisa invisível, como um vidro. Aos poucos foi percebendo que a imagem tinha o seu jeito e começou a se tocar para ver o que acontecia. Teve uma sensação de poder (do conhecimento) ao descobrir que era uma imitação dele. Olhava-se minuciosamente. Viu que tinha algo peludo que lhe cobria o rosto e que era o motivo de tanta coceira desde muito tempo. Com um objeto cortante tirou boa parte daquela coisa. O ambiente se iluminava cada vez mais. Ele percebeu que a luz passava por debaixo de uma madeira que tinha a meia altura um ferro. Tomou coragem e foi mexendo levemente até que o ferro cedeu. A madeira se mexeu e revelou um clarão intenso. Quando seus olhos, após o choque e a dor, se acostumaram, ele os abriu vagarosamente. Daí o assombro foi ainda maior. A luz revelou um mundo imenso, cheio de cores, formas, texturas, cheiros, intenso de vida, o qual ele ignorava completamente. Viu que era apenas uma poeira perto de tudo aquilo e que ainda tinha muito, mas muito a descobrir e aprender.
Essa releitura de O Mito da Caverna, escrita pelo filósofo Platão, é tão somente para demonstrar o poder da alfabetização. Faço esse post (um pouco atrasado, pois o dia da blogagem coletiva foi ontem) para participar da campanha da Blogagem Coletiva contra o Analfabetismo, iniciativa da Georgia e da Meire e abraçada por muita gente boa da blogosfera. O aprendizado é assim: quanto mais se estuda, mais se descobre, mais se completa e mais se tem a noção de ainda faltar muita coisa a saber. Eu, de fato, não faço tanta coisa para combater o analfabetismo, além de procurar sempre incentivar as pessoas ao meu redor à prática da leitura, ler para as minhas filhas e levá-las às livrarias, dar livros de presente para os familiares e mais chegados.
Mas é engraçado e fascinante essa coisa toda, pois se não fosse o processo de alfabetização, você, caro leitor, não estaria lendo esse post, eu não teria esse blog e participaria de outros. E tudo ficaria na mais completa escuridão. Assim como as pessoas que não sabem ler, escrever ou interpretar o que lêem. Ao evoluírem para esse nível de conhecimento, as portas, janelas e tudo o mais no mundo se abrem para elas.
Aprender é como a vida. Separados, somos apenas letras de um imenso alfabeto, que podem ou não fazer a diferença na história contada todos os dias. Mas juntos, somos como as letras que se dão as mãos e formam sílabas, palavras, textos imensos, dramas e romances do livro da vida. E a história não tem fim. Cada dia se escreve um capítulo diferente, onde pessoas unidas e engajadas constroem uma rica teia de relacionamento e desenvolvimento, fortalecendo as personagens, sejam elas principais ou coadjuvantes.
E como a historinha citada no começo, ainda temos a aprender e ensinar também.
Abraços.
A força do que sinto
Que dilacera os órgãos
Desejando achar o ponto de vazão
E expande em som
Irradia em luz
Não está no que se vê
Não fica visível a olho nu
É preciso um microscópio
Não o científico
Mas sim o imaginário
Nascido das percepções
Do sentimento puro
Amor, respeito e carinho
Essenciais para entender
A força do que me move
Que me faz enxergar além
Muito além dos olhos alheios
A que me permite vislumbrar
A profusão de cores
Das diferentes auras ao meu redor
Flores raras do meu jardim
Que me faz viajar em pensamentos
Transcender o corpo físico
Achar a força interior
E a colocar em palavras e açõesVersos vivos da poesia que sou
Manoel Gonçalves
Ah, teus lábios
Que chamam
E dizem que amam
Teus lábios
Molhados
Pintados
Lascivos de amor
Passeiam em meu corpo
Exploram sem pudor
Arrepiam
Atiçam, enfeitiçam
Os poros retraem
Os pêlos eriçam
Lábios que sinto
Toque suave
Cochicho ao pé do ouvido
Relaxa e deixa escapar um gemido
Lábios em meu rosto
Incitam minha libido
Secam minha boca
Doce beijo que não vem
Será real essa boca?
Por que não me toca a minha?
O desejo é ardente
E a espera quase enlouquece
Não cega porque compensa
Com o calor enfim
Dos lábios quentes macios
Manoel Gonçalves