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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O interior do silêncio mais silencioso


Cara MG.,

Fiquei contente com a visita em meu blog e nos escritos que ali tenho. Fique sempre à vontade para apreciar as paisagens, nem sempre tão belas é verdade, mas que retratam um pouco das influências do mundo no dia a dia. Dias que, por vezes, são tão barulhentos que parece que não ouviremos sequer o próprio pensamento.

Em momentos assim, nada como o silêncio, seja ele da noite, ao avançar das horas madrugada adentro, seja ele do poema inacabado, das curvas desenhadas em versos ainda disformes, sem a força e o ritmo do ápice de sua existência.

Quantos silêncios cabem em um poema? Nas intenções sublimadas em palavras escolhidas a dedo ou sopradas em sussurros por vozes ocultas, pirações visionárias ou inspirações latentes? Quanta coisa que deixou de ser dita para que se chegasse à forma perfeita a que o poema final se apresenta? Somente o autor para saber... talvez, nem ele mesmo o saiba.

Você já se perdeu em divagações antes do ato da escrita, imaginando o rumo de uma ideia para um poema ou texto qualquer? E quando vai começar a escrever, as linhas tomam outro rumo, outra estrada, outra lufada de ar. Não que haja arrependimento por este ou aquele caminho, mas presos nesses instantes, esquecidos nesses silêncios, tantos outros poemas ficaram e se perderam ou ainda estão à espera que o seu criador venha resgatá-los para dar-lhes forma e cor, movimento e sabor.

Por outro lado, a feitura do melhor doce requer a boa mistura, as pitadas de ingredientes, a mexida no tempo e no jeito que só o doceiro (ou doceira) sabe dar o ponto. Assim, na escrita, por mais que os rumos pudessem ser outros, que palavras fiquem implícitas nas paredes da obra acabada, as rasuras e alinhamentos são bem-vindos e necessários.
Citando isso, lembrei-me da música "Rasuras", do inspirador e talentoso Oswaldo Montenegro: "...E mais que o mais perfeito/Rasurar valeu a pena/Como esteve rasurado/O primeiro original/Do mais lindo poema".

Sigamos, portanto, perdendo palavras, encontrando orações, ocultando verbos, desvendando advérbios, substanciando os  substantivos, dando nomes e pronomes a quem for de sujeito, rs.

Abraço.

MG


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Projeto Missivas de Primaversa, organizado pela Scenarium Plural. Participam os autores:

4 comentários:

mariana gouveia disse...

Devo confessar que o silencio sempre me incomodou. Desde pequena, crescendo entre mais 6 irmãos o silêncio não era lá muito comum entre a gente.
Aqui, seu silêncio foi cortado pela magia da voz do Osvaldo Montenegro e embalei-me nas suas palavras.
Adorei ficar aqui entre suas linhas.

abraços

Lunna Guedes disse...

Eu não apenas perco palavras, como geralmente acabou por perder a mim mesma. rs

bacio

Manoel Gonçalves (Manogon) disse...

Obrigado, Mariana. Também sou de família gigante, mas um silêncio às vezes cai bem. rs. Seja sempre bem-vinda. Abraço.

Manoel Gonçalves (Manogon) disse...

Perder-se ao escrever é entrar em um mundo paralelo, ter ciência do que acontece à sua volta, mas também se permitir ir além, muito além. Abraço, Lunna.