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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Nessa manhã de Outubro, respiro...

Navegar é preciso; Viver não é preciso 

(Fernando Pessoa)

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha
de ser o meu corpo e a (minha alma) e a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica
do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer
a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça. 





Cara T,

Estava eu como uma barco à deriva, vagando indefinido pela suave correnteza deste grande rio, sem saber muito bem qual rumo tomar. Por ordem do destino ou do sopro de alguma divindade do povo ribeirinho, fui lançado a ancorar aqui nesses bancos de areia. Acabei por descobrir quão fértil são as terras dessa margem. "E os frutos que dela emanam."

Li em seus textos que aprecia discorrer sobre os meses e sobre as influências deles. Fato instigante, pois normalmente passamos por eles sem muito dar conta. Quando nos deparamos, estamos preparando a ceia de fim de ano. Mas a pensar nesse mote e nesses dias inaugurais de outubro, lancei-me a tentar decifrar um pouco dos mistérios desse mês.
Outubro desponta, todos os anos, como as manhãs que tivemos nessa derradeira semana. Envolto em brumas, indeciso, indefinido. Um misto de frescor do vento gélido noturno, umidade orvalhada em plantas e objetos e um brilho estranho, que nem os estudiosos do tema conseguem decifrar, pois ora tende ao clima nublado, ora descamba para o ardor do sol. Os dias têm essa ressaca matinal. Aquela famosa, porém vaga descrição de "gosto de cabo de guarda-chuva" (??) na boca, que tenta retratar o resto de euforia do dia anterior com o mal-estar do quase despertar.

Setembro se encerra com vivas de mais uma Primavera celebrada - a da estação e a da vida -, para desembocar em um outubro frio e prateado por chuviscos finos e constantes. A marca de alguém importante, que deixou sua marca sem precisar estar ao alcance de um aperto de mão, um abraço ou um conselho. Somente a certeza de que esteve por aqui e a gratidão por estar no mesmo rio pelo qual seu barco passou e singrou as curvas sinuosas desse caminho.

Mas como na natureza, as forças seguem seu ritmo e suas metamorfoses. A neblina desce, o frio abranda, o sol vem forte e acalentador. O dia segue. Ora ficará nublado e com possibilidades de chuva, ora se renderá ao grande astro. É certo que a noite virá para enternecer os corações e fazer descansar as mentes, preparando para outro belo e revigorante recomeço. Assim caminha outubro, assim navego eu...

E, assim, aprecio a beleza de seus escritos também, encantado por ter me lançado a essa margem, sentado à sombra de uma árvore e, calmamente, ter vislumbrado belas paisagens.

Aqui fica o abraço e o meu muito obrigado.
M.

Projeto Missivas de Primavera

Participam desse projeto os autores:



4 comentários:

Christina Herrmann disse...

E eu aqui dessa margem distante, aprecio seus escritos com a certeza de que a primavera realmente chegou. Belíssima e emocionante a sua carta, Manogon!

Manoel Gonçalves (Manogon) disse...

Obrigado, Chris. Seja sempre bem-vinda.

mariana gouveia disse...

Lindo!

Manoel Gonçalves (Manogon) disse...

Obrigado, Mariana Gouveia. Volte quando quiser. E leia à vontade.