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segunda-feira, 31 de março de 2008

Inércia


O silêncio da espera
Vagar dos movimentos
Ignora minha mente
Deixa-me torpe, inconsciente
Mas apesar do som ausente
Há um zunido interminável
Por mais ninguém escutado
Ínfimo, imperceptível
Somente por mim audível
O ritmo inesperado
Do coração acelerado
Enquanto espero
Pacientemente
Parece parar tudo
Pára o vento
Cessa o relento
A pipa não voa no ares
O barco não flutua nos mares
Imóvel fica a folhagem
A rua fica deserta
Ninguém a caminhar
Nem pedestre pedindo passagem
Nem carro, nem moto
Nem guarda para multar
Pára o barulho da cidade
Somem as dificuldades
Não se conta o peso da idade
Nem há rugas de preocupação
Nenhuma nuvem, nem tempestade
Nem sol quente de verão
Só há o relógio
E os seus ponteiros armados
Que mesmo vagarosamente
Avançam sempre pra frente
Incansáveis, determinados
A minha espera pára tudo
Interrompe qualquer movimento
Só não consegue paralisar
As engrenagens do tempo

Manoel Gonçalves

quarta-feira, 19 de março de 2008

Menina Mulher

Gosto do seu jeito de menina
Do seu modo de se mover
Flutuando como bailarina
Escondes o róseo da face
Finge o mundo não ver

Gosto do seu jeito de menina
Das suas formas de mulher
Do veneno que me contamina
Do seu olhar ardente
Que incendeia meu ser

Gosto do seu jeito de menina
De sorrir, sentir e brincar
Gosto do seu jeito de mulher
De olhar-me de canto de olho
De me tocar e me encantar
De não deixar uma saída sequer
Senão a de lhe apreciar

Gosto do seu jeito de menina
De como se transfigura no ar
Gaivota livre a voar
Dona da própria sina
Gosto do seu jeito de mulher
De suas rimas, suas canções
Da sua maneira de poder mexer
Com todas as minhas sensações

Vai, gaivota, no céu
Seja menina
Seja mulher
Seja o vento, o mundo
Seja o que seu coração quer
Seja tudo que possa ver
Enfim, seja simplesmente
Como você realmente é


Manoel Gonçalves

quarta-feira, 12 de março de 2008

Desabafo de Mãe está de volta!

Mães, pais, padrinhos, madrinhas, tios, tias, avós, amigos, todos. Corram para a frente da telinha, acessem o site do Desabafo de Mãe e podem viajar à vontade. Ele está de volta. Ficamos um pouco fora do ar, por motivos de reformulação, para fazê-lo ainda mais interativo, dinâmico e com mais conteúdo, mas agora acabou o recesso (sem fazer alusão à política). O espaço é de todos, feito por muitos e para todos aqueles que amam os filhos ou crianças próximas, ou seja, para quem aprecia a arte (para não dizer dura, mas prazerosa tarefa) de educar as crianças. Visite cada espaço e não tenha medo ou vergonha de nos mandar um comentário, dúvidas, sugestão de tema para ser abordado ou mesmo um desabafo sobre a sua experiência com a maternidade ou paternidade. Ah, você não é pai nem mãe. Não tem problema. Se pensa em um dia entrar para esse time ou se interessa pelo assunto, venha nos conhecer.

Um super abraço e aguardo sua visita.

terça-feira, 11 de março de 2008

Oculto

O pássaro não precisa que o fotografem em vôo para saber que voa. O sol não precisa aparecer sempre para que saibamos que ele está lá. Ninguém vê a formação do orvalho, mas toda manhã ele cobre as plantas e as deixa encantadoramente refrescadas. A lua não precisa aparecer para incitar o poeta a escrever seus belos versos. A pessoa amada não precisa ouvir sempre "eu te amo" para saber que alguém se preocupa com ela e quem ama transmite toda a força e sinceridade de seu sentimento em tudo o que faz, desde os atos mais simples até uma declaração mais fervorosa. O amor é recíproco, tenham certeza. Talvez não na mesma intensidade, talvez não na mesma linguagem. Mas ele está lá, marcando seu território e impedindo que sentimentos vis se apoderem da mente, do corpo e do espírito. Mesmo que os olhos não o vejam, o coração sentirá sempre e a mente não deixará que se apague. E assim, como o orvalho, toda manhã (ou qualquer outro período, conforme cada pessoa), ele se formará e se renovará, com a simplicidade de uma gota d’água, mas com a força de um desabrochar da flor, revelando a pureza e a beleza de quem o detém. É a paz que se sente ao sentar numa montanha e olhar o céu. Sentir-se pequeno frente ao céu alaranjado ao pôr-do-sol. E o espetáculo de um belo raiar do dia. Tudo isso misturado em nosso corpo, mera armadura forjada no ápice desse sentimento, preparando-se para irradiar a todos, como uma explosão da super nova, como o oxigênio que abraça carinhosamente o planeta e protege a diversidade de seu interior.

Abraços.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Amigos presentes

Há pessoas que, mesmo que se passe um tempão ou que elas fiquem muito longe, são inesquecíveis e quando a reencontramos parece que as vimos poucos minutos atrás. Não interessa há quanto a conhecemos. São pessoas que deixam suas marcas em nossas vidas, pelo que fazem, pelo que pensam, pelo que representam ou simplesmente pela agradável presença. Sou um homem abençoado por ter muitas pessoas assim em minha vida, as quais não medem o que sinto por elas pelo tanto de vezes em que vou em suas casas ou pelas cartas ou telefonemas que faço (assim como eu também não as julgo por isso). São elas conhecidas de muitos anos, recentes, de trabalho, de escola, do bairro onde cresci, das andanças por aí, das navegações pela internet, dos contatos pelo MSN, enfim, não importa de onde, o que importa é o que sinto por elas e o que delas recebo em troca. Para essa ilustres figuras fiz o verso abaixo. Sintam-se homenageados com esse gesto simples. Abraços.


Amigos presentes

É engraçado como o tempo
Tão senhor do nosso destino
Pode se tornar tímido
Tão pequeno como um menino

Quando a gente pensa
Nas pessoas que gostamos
Podem passar as horas
Podem voar os anos

Ele parece não passar
Encontramos as pessoas
Falamos ao telefone
E surgem as lembranças boas

Sentimos como se nada
Tivesse passado ou acontecido
Como fossem segundos
O tempo de fato vivido

E assim é que é bom
Mesmo que distantes
Amigos a gente não esquece
Mesmo sem vê-los
Ou mesmo por perto tê-los
Sua presença é pressentida
E deles na vida nos servimos
São gelo no calor escaldante
E a lareira que nos aquece
A mão que nos procura
E o ombro quando pedimos

Manoel Gonçalves

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Noite longa

A noite se arrasta
Madrugada adentro
O tique-taque não basta
Ela ignora o tempo

Eu parado aqui
Largado no sofá
Sem vontade de dormir
Pensando o que rabiscar

Essa folha branca na mesa
Parece ficar gigante
A mão não acha a leveza
E a inspiração está distante

O jeito é deixar pra lá
Ver um filme ou ligar o som
Sair por aí para caminhar
Cair na noite, aproveitar o que é bom

Talvez quando eu voltar
Quem sabe seja diferente
Talvez quando eu acordar
Quem sabe num banho quente

Manoel Gonçalves

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Despedida de um suposto inocente

Este é um conto que foi publicado dia 9-02 no blog Livro Aberto, editado pela Lunna Guedes, do qual participo todos os sábados. Por falar nisso, amanhã (23-02) tem mais um. Confira!



Abraços.





Despedida de um suposto inocente


Pela janela vejo a noite escura e sombria. Não há lua no céu, o que torna a noite mais enigmática. Uma sensação estranha permeia os meus sentimentos. Não sei exatamente o que me deixa assim, mas faço uma idéia. A noite silenciosa me convida às reflexões, às vezes banais, às vezes existenciais. Nessas últimas é onde me perco. Mas também é onde tenho a oportunidade de sair desse marasmo.


Não sei como vim parar aqui. Essa cela abarrotada de gente, fria e fedida. Um lugar onde a gente se esquece quem é e das coisas que mais gosta de fazer. Ontem, ao menos, foi diferente. Sai. Não fisicamente, é claro. Viajei por mundos distantes. Consegui vislumbrar além desse quadro de alvenaria. Voei acima das nuvens. Explorei os mares e seus segredos. Conquistei riquezas que jamais sonhava em possuir. Enfim, consegui sonhar. Era um paraíso. Mas a realidade crua me puxou de volta e cá estou, acuado, fragilizado e sem esperança.


Não lembro o que houve. Só sei que entrei num bar para espairecer. Andava meio desconfiado. Já havia algum tempo parecia não ser eu mesmo. Algo diabólico me rondava. Mas naquela noite o meu destino estava selado. Só me vem à memória que vi uma amiga, a qual platonicamente eu namorava, acompanhada por um cara. Meu mundo caiu. Tomei umas seis doses e tudo de apagou. Dizem que foi medonho, bárbaro. Mas eu não fiz nada. Só lembro-me de ter acordado na delegacia. E depois, aqui. Jurei inocência, mas ninguém acredita e riem da minha cara dizendo que aqui todos assim se definem.


Depois de tantas investigações, enfim, descobriram o verdadeiro assassino. E selaram sua condenação. Mas o pior foi saber que ele veio para o mesmo lugar que eu. Fiquei ao mesmo tempo furioso, por saber que ele é o culpado de eu estar aqui, e temeroso, pois sei que ele é cruel demais. Ele já soube que estou aqui e como não tem muito espaço nessa prisão, sei que em breve ele virá. Está furioso e disse que eu fui culpado por pegarem-no. E não gostou. Sua fúria está incontrolável. Jurou vingança. Disse que acabará comigo e que de hoje não passo. Tento lutar para me manter aqui, mas já não tenho mais forças. Acho que será essa noite. Ouço seus gritos aterradores. Não poderei enfrentá-lo. Sou fraco demais e não há espaço nesse corpo para nós dois. Então, só me resta contemplar a noite escura e me conformar. Sei que não vou sair daqui mesmo. Aqui não é lugar mesmo para pobres sonhadores. Eu seria devorado se permanecesse aqui. É melhor abrir espaço para a sua raiva e aceitar que ele suma com o que resta de mim. Sem esperança, é melhor deixar que tome o controle. Ele já é maior que eu mesmo e me engole aos poucos. Depois de ter “experimentado” o gosto do sangue, em vez de se arrepender, gostou. Serei a próxima vítima de sua falta de escrúpulos. Somente mais uma dentre as inúmeras que acho que fará. Pobres idiotas que aqui estão. Serão meros corpos com o passar dos dias. Ele os devorará. Minhas forças somem e as dele, criatura maligna, crescem. Só queria ter tido mais tempo e mais coragem para lutar. Faltam poucos momentos de lucidez. Os últimos. Depois, sei lá onde estarei. Serei apenas o reverso do espelho da outra face, a do mal. A que se mostrou mais forte e que está prestes a cometer mais um homicídio, o meu. Já não há mais tempo. Já não há mais nada.


Fujam pobres presas, pois ninguém ficará vivo ao meu lado... isso me fascina... sangue, ossos quebrados, olhos de súplica, gritos e... mais SANGUEEEEE!


Manoel Gonçalves