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Mostrando postagens com marcador Mariana Gouveia. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Uma porta que me leva a outro lugar

 

Amanhecer - Imagem: Manogon


"... Meu amor
Me ensina a fazer
Uma canção falando quanto custa
Trancar aqui dentro as palavras
Calando e querendo dizer
Não sei se o poema é bonito
Mas sei que preciso escrever..."

(Me ensina a escrever - Oswaldo Montenegro)


Cara amiga Lunna,

A missiva final desse projeto da Primavera endereço a você, mentora de tantas história e mediadora de tantas mentes e vontades. Porto seguro onde atracam diversos navios carregados de personagens e tesouros em formas de letras.

Seus textos conversam com os leitores, criando aí uma ponte entre leitor e emoções, entre as criaturas, as criadoras e os apreciadores. E assim, enchem-se as telas de criações literárias, enchem-se as salas, cafeterias e bibliotecas de eventos para abarcar essa confraria de teimosos e amantes da escrita.

Caminho por diversas estradas. Uma delas é forrada de letras, palavras, versos, contos e histórias sem fim. Rogo sempre ser merecedor de tão bela arte e poder encantar as pessoas, seja pela escrita e conteúdo, seja pela emoção ou conjunto da obra. Aprecio o desenrolar de suas tramas e a maneira como nascem aos montes dessa terra rica. E espero, em um rompante daquela "invejinha" que nos motiva e impulsiona, obter tamanha profusão.

Não sei se o projeto das missivas era assim como fiz, como participei, nem se deveria ter esse desfecho, mas sigo também o meu instinto e capto a reação das pessoas que acompanharam e me honraram com sua leitura.

Como sempre leio em suas postagens menção a essa maravilhosa bebida, quero mais café. Que venham muitas xícaras e copos com os mais variados cafés, acompanhados de dedos de prosa, troca de percepções e aspirações, lançamentos e projetos. E que os pensamentos, as criações se misturem à fumaça do café, dançando em frenesi pelos ares, cativando quem a inspira, povoando as mentes com as imagens, surpresas e desdobramentos, apetecendo paladares, vislumbrando olhares e instigando curiosidades.

E que a sala continue cheia de boas companhias.

Até mais.

Manogon

Oitavo e último tema do projeto Missivas de Primavera, com autores da Scenarium Plural. Participam desse projeto:

Adriana Aneli | Lunna Guedes | Tatiana Kielberman | Chris Herrmann | Mariana Gouveia | Manogon  |  Emerson Braga | Ingrid Morandian

Caindo de si em si mesmo



Imagem: Freepik


"...Não sei onde eu to indo
Mas sei que eu to no meu caminho
Enquanto você me critica, eu to no meu caminho..."

(No Fundo do Quintal da Escola - Raul Seixas)



Estimado filho,

Você não sabe a alegria com que recebi sua carta no dia do meu aniversário. Não esperava nenhuma novidade, nenhuma notícia. Já estava até me conformando em passar mais um dia no mesmo marasmo quando fui surpreendido pelo Zé chamando meu nome. Zé é o nosso carteiro, que conhece quase todo mundo e sempre traz as boas novas (ou nem tão boas assim).

Eu queria tanto saber notícias suas... puxa, quanto tempo já se passou! Desculpe não ter comparecido à sua formatura. Não deu pra ir. Mas imagino como ter sido linda a festa. Um dia de muito orgulho e muita alegria, mesmo sem a minha presença. Estou certo que sua mãe também está muito contente com você. Ela deve estar chateada comigo, não é? Mas não a culpo. Do jeito que as coisas estão, a gente acabou se distanciando um pouco. Mas saiba que ainda a amo. E você então, nem se fala. Sou louco por você, moleque! Saiba disso e nunca esqueça.

Meu coração se encheu de alegria em saber que vai fazer um curso técnico, que já pensa em trabalhar e que anda de olho numa garotinha aí. É... o tempo passou mesmo! Meu menino já é quase um homem, já crescido. Isso mesmo, meu garoto, estude bastante porque sem estudo a gente não consegue muita coisa. Espero coisa melhor pra você e não o mesmo destino que o meu.

Eu também gostaria de vê-lo, mas sei que não dá. Você não pode vir pra cá e eu estou impossibilitado de voltar pra casa no momento.

Bom, meu filho, se cuida e cuide de sua mãe. Lembre-se que é o homem da casa, rs. Eu ficarei bem, na medida do possível. Quero receber mais notícias suas e, se não for pedir demais, quero que receba as minhas também, apesar da minha rotina não mudar. Mas só de poder escrever para você, meus dias aqui ficarão melhores. Não vejo a hora de poder voltar, se é que ainda vão me receber e me perdoar. Espero ansiosamente o fim da minha pena, mas ainda faltam 18 meses. Pra quem já perdeu alguns anos nessa cela, meses não são nada. Desculpem-me pelos meu erros. Fui fraco, mas na minha cabeça, estava tentando melhorar a nossa vida, levar comida pra casa. Nem parei para pensar se era certo ou não. Lamento.

Fique em paz. Te amo. 

Seu pai, AC.

Sétimo tema da blogagem coletiva com autores da Scenarium Plural, projeto Missivas de Primavera. Participam desse projeto os autores:

Adriana Aneli | Lunna Guedes | Tatiana Kielberman | Chris Herrmann | Mariana Gouveia | Manogon |Emerson Braga | Ingrid Morandian

Navega-se sem mar, sem vela ou navio

Imagem: shutterstock

"... Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar..."

(Preciso me Encontrar - Cartola)


Caro amigo BK,

Escrevo essa missiva como se conversasse apenas comigo, na tentativa de achar uma resposta ao menos animadora e satisfatória, sobre coisas boas a seu respeito. Embora também precisasse que elas fizessem parte do meu dia a dia, é bem verdade.

Há tempos não o vejo nem nos encontramos para dar boas risadas ou tomar alguns belos goles de vodka, falar besteiras de velhos amigos e calejados trabalhadores. A "firma" como chamávamos já não existe mais e deixou de ser nosso ponto de encontro diário há bons longos e saudosos anos. Éramos uma turma feliz. Não só como colegas de trabalho, mas como amigos que partilhávamos detalhes, até mesmo familiares.

Quantas alegrias e conquistas dividíamos, não é mesmo? O nascimento da minha primeira filha, a formatura do seu filho no chamado "ginásio". Tantas mudanças que já nem sei qual o nome que dão para isso! O primeiro dente caído da minha pequena, a primeira namorada do seu... quanta coisa!

É verdade que também houve tristeza... a morte da cachorra da família, cirurgias e machucados, algumas brigas e ossos quebrados... Enfim, vida. Como uma viagem de navio em dia tempestuoso, não é verdade?

Mas, acima de tudo, tenho orgulho de dizer de nossa amizade. Os cabelos branquearam, a coluna insiste em me lembrar que os anos passaram, o neto já corre mais que eu. A família aumentou. A minha "nega" também soube envelhecer comigo. Tem sido minha rocha sólida esses anos todos, na qual se ergue e se mantém minha estrutura toda.

De tudo isso, meu amigo, só lamento não ter a sua companhia por perto para poder partilhar. Sequer sei se ainda continua com essa gargalhada característica.

Pois é, escrevo imaginando suas respostas e rindo de todas elas. Escrevo, não querendo voltar ao passado, mas grato por ter vivido tudo isso. E escrevo para perpetuar tudo isso, não como um final de história, um ponto final.

Onde quer que esteja, meu amigo, um gole à nossa amizade.


Franz


Sexto tema da blogagem coletiva Missivas de Primavera, com os autores da Scenarium Plural. Participam do projeto os autores:

Adriana Aneli | Lunna Guedes | Tatiana Kielberman | Chris Herrmann | Mariana Gouveia | Manogon | Emerson Braga | Ingrid Morandian

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Nem só de café vivem os loucos


"Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz..."

(Balada do Louco - Os Mutantes - Composição: Arnaldo Batista/Rita Lee)

Cara AA.,

Escolhi a você para o envio dessa missiva não exatamente pelo tema, loucos e café, rs, embora tenha tudo a ver, mas justamente pela diversidade e multiplicidade dessa mistura. Como diz a música que destaquei, ser louco por ser feliz e louco (no sentido mais distante de uma suposta normalidade do ser) quem diz não ser. Somente nesse estado de graça alguém poderia imaginar ter uma Boca a Penas, viajar entre borboletas e lagartas, inspirar desenhos e figuras.

Entre uma divagação e outra, ouço a máquina do café em funcionamento. O aroma já toma conta da cozinha e se espalha pela sala. Lembro das esculturas que a Flavia fez com o tema do seu livro Amor Expresso, inevitável coincidência ao pegar a xícara de café para sorver um gole. A fumaça embaça a lente dos óculos e se perde em loopings aromáticos sobre a mesa.

A noite se deslancha, entrando sorrateira pelos silêncios e ecos da madrugada. O café vai chegando ao fim, mas o gosto permanece por muito tempo ainda. E parece que é esse gostinho que fica, que deixa um gostinho de quero mais, que prepara para uma próxima xícara, mesmo que não de imediato.

Da mesma forma, li suas cartas em seu blog e os poemas que vez ou outra esbarro com eles nas redes. O poema passa, mas fica também aquele gostinho de quero mais, que prepara para a leitura de um próximo, mesmo que não seja de imediato.

Aliás, preciosidades como essas devem ser apreciadas com sapiência, aproveitando cada gole, cada palavra, cada aroma, cada sentimento, por mais loucuras que possam representar.

Abraço.

MG

Quinto tema da blogagem coletiva Missivas de Primavera, com os da Scenarium Plural. Participam desse projeto os autores:

sábado, 29 de outubro de 2016

A Flor Escura da Realidade?

                         

A flor escura da realidade?

"...um dia me disseram
que as nuvens não eram de algodão
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem essa prisão..."

(Somos Quem Podemos Ser - Engenheiros do Hawai - Composição: Humberto Gessinger)


Caro amigo M.,
Não está entre os destinatários mais listados dessas missivas de Primavera, mas figura em boa conta entre os autores que tenho o prazer de ler.

Dias finais de outubro e o céu continua indeciso sobre como quer se apresentar. Ora se mostra feliz em seu raiar, mostrando os dentes escancarados do sol, brilho e fundo azul. Ora se transfigura e fica sisudo feito moleque birrento a negar um sorriso ao tio, como quem só quer fazer o que quer e na hora que bem entender.

Em horas assim, nada como criar o seu próprio local, seu próprio mundo, seu céu preferido, seu luar inspirador, seu império solar. Fica-se assim a imaginar o clima correto, as vestimentas apropriadas, os salamaleques distintos para reverenciar tal dádiva encantadora.

Fuga da realidade incerta? Duvido. Vontade incompreendida de estar em outro canto? Inverossímil! Sou mais propenso a acreditar que o seu lugar preferido é real e acessível. Ele existe porque é onde o poeta pode dar vazão à sua torrente incessante de dizeres internos. Local em que o autor é o mentor da história, mas ao mesmo tempo, protagonista, observador, vilão e mocinho. Lá, a lua não é só um astro iluminado. É magia, encanto, fonte cativante de tensões e atenções, seja de olhos enamorados, seja de arautos, bardos, trovadores. Ou mesmo uma pessoa simples, de elevada percepção e sensível sinergia com a harmonia da natureza.

Não é refúgio, é destino. Mas também é ponto de partida, é morada certa para o merecido descanso, o almejável remanso, a renovação das forças em lagos profundos de sabedoria e sentimento. É o ponto de recobrar os sentidos e aguçar a visão, alçar voo e enxergar além, pra lá de outras bandas, muito mais distante, seja no norte, no sul, seja em São Paulo ou Istambul.

Apreciando suas idas e vindas a esse lugar mítico e místico.

Abraço.



MG



Quarto tema da postagem coletiva Projeto Missivas de Primavera, da Scenarium Plural. Participam dessa blogagem os autores:

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Um elogio ao silêncio... e à solidão

"...Viver é afinar o instrumento (de dentro)
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

...

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo..."
(Serra do Luar - Walter Franco)



Cara L.,




Como talvez tenha percebido, nessas cartas enviadas, não escolhi apenas um destinatário. Senti-me à vontade para espalhar as missivas por aí, ao entortar da fumaça do café, ao intangível aroma, seja dessa inebriante bebida, seja dos salgados que ora a acompanham. Eles se espalham, misturam-se à multidão, ao já repleto cenário de cheiros, sabores e cores. Assim como as cartas, que se misturam a tantas outras enviadas e recebidas, e que ajudam a incrementar o seu vasto espectro de leitura.


Tive de dar um tempo à sequência por nós abraçada e desenvolvida com dedicação e variedade dos mestres confeiteiros, que se debruçam sobre suas obras para o deleite dos degustadores, amantes da arte e devoradores vorazes. Outubro deslizou majestoso, mas tão intenso quanto rápido. O silêncio se fez presente e necessário.

Silenciar, não por se esgotarem as palavras ou assuntos, mas porque a circunstância solicita, de forma tão gentil quanto um paquiderme passeia sem alarde. Entrar em estado de "stand by", no qual você está ligado, quase acompanhando o movimento em câmera lenta, mas ao mesmo tempo, não está apto a exibir nada qualitativamente aceitável.

Mas a criação também se faz e refaz do caos, entre pausas, silêncios e intermitências de respiro. O ator continua repleto de sentimentos, intenções e ações internas mesmo quando está imóvel, sentado em uma palco vazio, ante à plateia curiosa. É nesse momento que o mínimo se torna essencial, que um gesto, um olhar, uma respiração ou apenas uma palavra solta com propósito pode preencher o espaço como um todo.

A pausa fez-me focar no que era imprescindível e, ao mesmo tempo, apreciar a beleza das belas linhas que estão passeando por aqui, nas quais recaí sobre seus escritos. Não é de hoje que aprecio suas paisagens e pinturas literárias. Entre cafés, chás, linhas e letras, há sempre uma vida costurada, o pulsar tangível, mesmo quando retrata o que não se pode ver ou pegar. Se a escrita, como se diz, é solitária, está sempre carregada de tipos e pulsações, de seres e criações coletivas, que se entrelaçam, moldam-se e se recriam tantas vezes quanto se fizer necessário e admirável.

Abraço, caríssima.

MG


Terceiro tema do Projeto Missivas de Primavera, da Scenarium Plural. Participam os autores:

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Nessa manhã de Outubro, respiro...

Navegar é preciso; Viver não é preciso 

(Fernando Pessoa)

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha
de ser o meu corpo e a (minha alma) e a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica
do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer
a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça. 





Cara T,

Estava eu como uma barco à deriva, vagando indefinido pela suave correnteza deste grande rio, sem saber muito bem qual rumo tomar. Por ordem do destino ou do sopro de alguma divindade do povo ribeirinho, fui lançado a ancorar aqui nesses bancos de areia. Acabei por descobrir quão fértil são as terras dessa margem. "E os frutos que dela emanam."

Li em seus textos que aprecia discorrer sobre os meses e sobre as influências deles. Fato instigante, pois normalmente passamos por eles sem muito dar conta. Quando nos deparamos, estamos preparando a ceia de fim de ano. Mas a pensar nesse mote e nesses dias inaugurais de outubro, lancei-me a tentar decifrar um pouco dos mistérios desse mês.
Outubro desponta, todos os anos, como as manhãs que tivemos nessa derradeira semana. Envolto em brumas, indeciso, indefinido. Um misto de frescor do vento gélido noturno, umidade orvalhada em plantas e objetos e um brilho estranho, que nem os estudiosos do tema conseguem decifrar, pois ora tende ao clima nublado, ora descamba para o ardor do sol. Os dias têm essa ressaca matinal. Aquela famosa, porém vaga descrição de "gosto de cabo de guarda-chuva" (??) na boca, que tenta retratar o resto de euforia do dia anterior com o mal-estar do quase despertar.

Setembro se encerra com vivas de mais uma Primavera celebrada - a da estação e a da vida -, para desembocar em um outubro frio e prateado por chuviscos finos e constantes. A marca de alguém importante, que deixou sua marca sem precisar estar ao alcance de um aperto de mão, um abraço ou um conselho. Somente a certeza de que esteve por aqui e a gratidão por estar no mesmo rio pelo qual seu barco passou e singrou as curvas sinuosas desse caminho.

Mas como na natureza, as forças seguem seu ritmo e suas metamorfoses. A neblina desce, o frio abranda, o sol vem forte e acalentador. O dia segue. Ora ficará nublado e com possibilidades de chuva, ora se renderá ao grande astro. É certo que a noite virá para enternecer os corações e fazer descansar as mentes, preparando para outro belo e revigorante recomeço. Assim caminha outubro, assim navego eu...

E, assim, aprecio a beleza de seus escritos também, encantado por ter me lançado a essa margem, sentado à sombra de uma árvore e, calmamente, ter vislumbrado belas paisagens.

Aqui fica o abraço e o meu muito obrigado.
M.

Projeto Missivas de Primavera

Participam desse projeto os autores: